Uma reunião que deveria ser de rotina virou um dos episódios mais tensos da gestão de Gianni Infantino à frente da FIFA. Em Zurique, o presidente da entidade passou mais de três horas e meia diante dos 37 membros do Conselho para tentar explicar o projeto FIFA Forward Enterprise (FFE), plano que prevê a criação de uma subsidiária para administrar os direitos comerciais da Copa do Mundo e a venda de 20% de suas ações a investidores privados, com avaliação estimada em até US$ 20 bilhões. Infantino pediu desculpas publicamente pela falta de consulta prévia ao Conselho, mas o gesto não foi suficiente para conter o desconforto generalizado entre dirigentes europeus.
Pedido de desculpas que não convenceu
Infantino assumiu a responsabilidade pelos falhos processos de comunicação em torno do FFE, mas fez questão de reforçar que o projeto ainda é apenas uma "proposta" em discussão, e não uma decisão formal. A tentativa de apaziguar os ânimos, no entanto, teve efeito contrário. Dois advogados americanos contratados pela FIFA chegaram a fazer uma apresentação de 30 minutos defendendo os termos do acordo, mas foram instruídos a deixar a sala por exigência dos próprios conselheiros, que pediram a divulgação integral e pública de toda a documentação relacionada ao projeto, em vez de justificativas verbais.
O episódio ganhou contornos ainda mais delicados com a informação de que Infantino recebeu US$ 1,7 milhão em 2024, valor que não aparece nos registros contábeis oficiais da entidade - assunto que, até o momento, segue sem explicação formal da FIFA.
Críticas duras de federações europeias
O presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Bernd Neuendorf, classificou o pedido de desculpas como forçado e evasivo. Para ele, Infantino se limitou a lamentar ter "ignorado" o Conselho - o que teria motivado vazamentos à imprensa - sem demonstrar arrependimento real quanto ao mérito do projeto FFE. Neuendorf defende uma "reformulação completa" da governança da FIFA, algo que, em suas palavras, seria "impossível enquanto Gianni Infantino permanecer no poder".
Na mesma linha, a vice-presidente da FIFA e presidente da Federação Inglesa (FA), Debbie Hewitt, revelou que uma extensa lista de perguntas enviada antes da reunião não recebeu respostas satisfatórias. Segundo ela, Infantino "precisa responder a essas perguntas" sob pena de não estar qualificado para seguir à frente da entidade. Um dirigente da FIFA, sob anonimato, resumiu o clima da reunião afirmando que o objetivo do presidente era simplesmente "sobreviver" ao encontro.
Como resultado concreto da pressão da oposição, o Conselho nomeou o xeque Salman bin Ibrahim Al-Khalifa, presidente da AFC, como novo responsável pelo comitê que vai revisar a reforma da governança da entidade.
Outras controvérsias na pauta
O encontro também reacendeu discussões sobre decisões recentes de Infantino. Está em debate o caso da expulsão direta do atacante americano Folarin Balogun, supostamente influenciada por pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - a proposta de mudança nas regras disciplinares ligada ao episódio foi adiada para a reunião de Doha, marcada para 16 de dezembro. Também entrou em pauta o chamado Prêmio da Paz da FIFA, concedido a Trump, cuja continuidade será avaliada pelo Comitê de Responsabilidade Social Corporativa da entidade.
Apoio fora da Europa sustenta Infantino
Apesar da oposição forte de federações europeias, Infantino segue amparado por representantes africanos e asiáticos. Ahmed Yahya, presidente da Federação de Futebol das Maurícias, afirmou que a maioria das federações-membro ainda apoia a permanência do dirigente suíço-italiano, citando o aumento do apoio financeiro e a expansão da Copa do Mundo para 48 seleções como conquistas relevantes de sua gestão.
Nessa mesma reunião, a FIFA aprovou a destinação de US$ 3,5 bilhões de seu fundo de reserva, repassando até US$ 25 milhões a cada federação-membro ao longo dos próximos quatro anos - medida interpretada por parte do establishment do futebol como uma jogada estratégica de Infantino para reforçar sua base antes de uma eventual campanha pela reeleição. O cenário político se consolidou ainda mais com a retirada de potenciais candidaturas rivais, como as de Aleksander Ceferin (UEFA), Victor Montagliani (Concacaf) e do próprio Sheikh Salman (AFC), além do desmentido sobre uma possível candidatura de Arsène Wenger.